Ruínas

Mario Chagas 
As ruínas do presídio são belas belas também são as ruínas do templo do deus morto há muito em comum entre as ruínas e mais ainda entre o presídio e a igreja heras limos fungos liquens húmus umidade uma umidade herdeira de salivas suores espermas sangues e mênstruos confere às ruínas um cheiro humano raízes movimentam as ruínas deslocam pedras tijolos argamassas e rebocos e cravam suas memórias nas memórias dos alicerces ali os insetos incluindo abelhas vespas e borboletas e não apenas baratas formigas e mosquitos ali os aracnídeos incluindo ácaros carrapatos e escorpiões e não só viúvas-negras aranhas-marrons e armadeiras ali os miriápodes incluindo as lacraias e não apenas os gongolos ou piolhos de cobra buscam abrigo a ruína é um abrigo acolhedor de sonhos medos pesadelos desejos afetos memórias por ali pela ruína também perambulam minhocas camaleões cobras cães e gatos vadios e passarinhos que não cabem nas gaiolas classificatórias há muita vida nas ruínas muita vida livre há muita liberdade nas ruínas do presídio e por isso elas são tão belas como as ruínas do templo e por isso o deus do tempo estendeu seu manto sobre elas as ruínas do presídio e da igreja quando as ouço não me falam do passado falam do presente e do futuro o que vejo e ouço nas ruínas não são vozes luzes ou fantasmas do passado são encarnações do amanhã são demandas e ultimatos do devir as ruínas do presídio agora são antro de liberdade canto de louvor à libertação de corpos e almas as ruínas do presídio são mais belas e mais fortes que o presídio em suas paredes estão inscritos amores ódios e delírios e ocultados ossos unhas e cabelos elas e suas não-janelas estão vivas e dramatizam pelejas acendem e rescendem poesia as ruínas do presídio lembram que a ruína da humanidade habita presídios que aprisionam corpos e templos que aprisionam almas (prisioneiros prisioneiros somos todos prisioneiros) implodir presídios e templos é tarefa nobre e apropriada para poetas Ver também sobre as ruínas: Fotografias Ilha Grande: Ruínas na era da memória Myrian Sepúlveda dos Santos - maio 2013

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